Um dia para ser lembrado. Há exatos 61 anos atrás, o estado democrático de direito era suprimido no Brasil por um golpe civil-militar que depôs o presidente legitimamente eleito, João Goulart. Em seguida, o Congresso Nacional foi fechado, a imprensa calada e opositores foram perseguidos, torturados e mortos. Dentre as vítimas, o jornalista e professor Vladimir Herzog, enforcado, e o ex-deputado Rubens Paiva, torturado e morto na prisão, episódio parcialmente retratado no filme vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2025, “Ainda Estou Aqui”. Neste período, houve aumento da inflação, concentração de renda e marginalização das minorias e dos mais pobres que se aglomeraram em favelas e assentamentos irregulares. Depois de duas décadas de censura e violência, houve uma volta gradual à democracia com a lei da anistia, eleições diretas e a promulgação de uma nova Constituição. Anistiados golpistas e torturadores, a história foi varrida para debaixo do tapete, ninguém foi punido e as famílias dos desaparecidos não puderam sequer velar seus mortos. Documentos foram queimados e desapareceram. Livres e esquecidos, os governantes, herdeiros e admiradores da ditadura se reorganizaram e anos depois voltaram a atacar, em um conluio com juízes e membros do Ministério Público colocaram o principal candidato às eleições de 2018 na cadeia – posteriormente inocentado pela justiça das acusações, e depuseram a presidente eleita. Numa articulação com políticos estrangeiros, como em 1964, empresários e imprensa, financiada por estes, promoveram uma gigantesca campanha de depreciação dos principais líderes e partidos progressistas do país, retomando o poder nas eleições de 2018, numa campanha em que pela primeira vez houve o protagonismo das Fake News, fartamente disseminadas nas redes sociais sem qualquer controle. Sobre os fatos, prevaleceram as versões. O escolhido pelos partidos de direita, apoiados pela extrema-direita em ascensão, para ocupar a cadeira presidencial foi o bufão do Congresso Nacional, a figura caricata do ex-militar expulso do exército por conspiração e que havia se tornado popular ao dizer frases como “o erro da ditadura foi torturar e não matar”; homenagear o Coronel Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como um dos principais responsáveis pela tortura no período da ditadura, que incluiu a primeira mulher presidente do Brasil; e propor uma “guerra civil aqui dentro, fazendo o trabalho que o regime militar não fez , matando uns trinta mil, começando com o FHC”. Antes de se eleger, disse ser a favor da ditadura. Durante seu governo armou a população e preparou um golpe para o caso de não ser reeleito. Em 8 de janeiro de 2023, sua horda, alimentada durante meses nos acampamentos em frente as instalações militares em diversas cidades brasileiras, sob a anuência de governadores e prefeitos, hoje em silêncio, tomaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, saquearam em depredaram a sede dos três poderes enquanto pediam intervenção militar. Com farta documentação sobre a tentativa de golpe de estado, incluindo informações sobre o planejamento do assassinato do presidente, do vice-presidente eleitos e de um ministro do Supremo Tribunal de Justiça, os responsáveis foram colocados no banco dos réus. Para se safarem buscam apoio para aprovar um projeto de anistia no Congresso. Se isto ocorrer, a história irá se repetir, desta vez como tragédia. Afagaremos criminosos como no passado que voltarão ao poder para, de forma ainda mais violenta, revogar nossa soberania, oprimir nosso povo, propagar a mentira e o ódio, enquanto subtraem nossas riquezas e enriquecem seus pares. Por isso, é preciso recordar o Golpe de 64 e dizer aos golpistas de plantão, em alto e bom tom: SEM ANISTIA!
Prof. Dr. Ricardo Dias Silva