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Bloqueio no mar Negro agrava receios de crise alimentar e nova onda migratória

A escalada no mar Negro reacendeu receios entre europeus de que a Rússia tente usar as cadeias de abastecimento alimentar como arma, para provocar uma onda migratória e enfraquecer o apoio à Ucrânia.

Por O Fato Redação
03/09/2026
em INTERNACIONAL
foto: euronews

foto: euronews

A Europa receia o desencadear de uma crise devastadora com efeitos em cadeia, em um momento que a guerra da Rússia na Ucrânia impõe um novo bloqueio no mar Negro, estrangulando uma rota comercial vital.

O sentimento de alarme ficou evidente na quarta-feira, durante uma reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE na Irlanda, marcada por apelos a um cessar-fogo imediato na região.

“No mar Negro, os ataques russos contra navios de cereais podem provocar um novo choque mundial em matéria de segurança alimentar”, afirmou a alta representante da UE, Kaja Kallas.

Maxime Prévot, da Bélgica, apelou a uma “solução coordenada” para evitar o que descreveu como uma catástrofe tripla: o colapso das receitas do Estado ucraniano, uma crise alimentar global em África e o agravamento dos fluxos migratórios em grande escala em direção à Europa.

“Os bloqueios aos carregamentos de cereais e de energia no mar Negro também não são algo que possamos simplesmente observar à distância”, acrescentou.

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Desde julho, Moscovo intensificou os ataques contra portos e navios ucranianos no mar Negro, comprometendo seriamente a capacidade do país de vender cereais a clientes como o Egito, a Argélia, a Tunísia, o Iémen e a Indonésia, entre outros. Kiev respondeu na mesma moeda e lançou ataques com drones e mísseis contra navios e infraestruturas russas.

A escalada coincide com o pico da época das colheitas na Ucrânia e deixou grandes quantidades de milho, cevada e trigo acumuladas no interior do país.

Antes da retoma dos ataques, a Ucrânia exportava 6 milhões de toneladas de produtos agrícolas e siderúrgicos todos os meses através de três portos: Odessa, Chornomorsk e Pivdenny.

Agora, escoa cerca de 4,5 milhões de toneladas por rotas alternativas, já que os operadores continuam relutantes em arriscar a perigosa viagem marítima.

Mas estas rotas, conhecidas como corredores de solidariedade, deixaram de beneficiar de um regime isento de tarifas, que Bruxelas aboliu após a contestação de países da Europa de Leste.

Uma dessas rotas, que liga as exportações ucranianas ao porto romeno de Constança através do Danúbio, atravessa uma seca estival sem precedentes.

Bucareste discutiu opções logísticas com Kiev para aumentar o trânsito nos corredores de solidariedade, afirmou na Irlanda a ministra romena dos Negócios Estrangeiros, Oana-Silvia Țoiu, exprimindo preocupação com a subida constante dos preços alimentares a nível mundial.

“É um instrumento essencial para garantir o acesso a preços acessíveis dos cereais em todo o Médio Oriente e África”, disse.

O seu homólogo ucraniano, Andrii Sybiha, que também participou na reunião, exortou os europeus a exercerem “pressão” sobre a Rússia para alcançar um cessar-fogo total no mar Negro.

Sybiha afirmou que as rotas alternativas nunca irão “compensar totalmente” as exportações por via marítima.

A paralisação quase total dos portos colocou os agricultores locais sob forte pressão, ao aumentar os custos de transporte, fazer cair os preços no mercado interno e elevar o risco de falências numa altura em que começa uma nova época de sementeiras. A capacidade de armazenamento é insuficiente para o excesso de produção.

A indústria siderúrgica também foi negativamente afetada.

Para Kiev, um grande exportador de cereais, o choque financeiro é agravado pela escalada mais ampla da Rússia, incluindo ataques contínuos com drones destinados a semear o medo entre os civis e a perturbar a atividade económica nas cidades.

O país já pediu aos aliados ajuda para cobrir um défice de 23 mil milhões de euros, uma lacuna que o bloqueio no mar Negro ameaça agravar devido à quebra das receitas públicas.

Os países da UE ponderam atualmente alterar o calendário do empréstimo de apoio de 90 mil milhões de euros para antecipar uma parte prevista para 2027. Mas fazê-lo significaria menos recursos para o ano seguinte e poderia provocar uma interrupção desse apoio.

Enquanto um grupo de países tenta recuperar a ideia de recorrer aos 210 mil milhões de euros de ativos russos imobilizados, a Comissão Europeia mostra-se relutante em reabrir o debate sobre este tema sensível. A Bélgica, que detém a maior parte dos ativos, opõe-se firmemente.

O bloqueio no mar Negro acarreta igualmente riscos globais: a escassez de cereais pode alimentar a inflação nos países em desenvolvimento, alimentar o descontentamento popular e incentivar a migração em direção à Europa. No Egito, um dos principais clientes da Ucrânia, o preço do pão é seguido de perto.

A migração é há muito um dos temas mais controversos na Europa, mas o debate tornou-se ainda mais intenso desde a crise em Ceuta, em Espanha, quando mais de 80 000 pessoas atravessaram a fronteira a partir de Marrocos num afluxo maciço.

Estes receios pesam sobre os europeus, que têm acusado repetidamente a Rússia de usar as cadeias de abastecimento alimentar como arma para minar a simpatia pela Ucrânia.

“A opinião pública começa a dar sinais de cansaço deste apoio”, afirmou Prévot na Irlanda, “mas ele continua a ser mais essencial do que nunca”.

euro news

Tags: europaguerraimigraçãomar negromultasRússiaUcrãina
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