Quem quando criança não saiu juntando tampinhas de garrafa ou foi pedir para a mãe guardar a borra do café para enfeitar as ruas de sua cidade para o Corpus Christi? Sabiia, por isso, que esta festa começava a ser preparada bem antes e iria ajudar a montar os desenhos e símbolos eucarísticos pelas ruas. Na quinta-feira santa, também celebramos a eucaristia, como a ceia do Senhor dentro da Igreja, partilhando o pão eucarístico na comunidade. Corpus Christi com sua procissão nos tira para fora dos muros da Igreja, num alerta de que o pão da vida precisa ganhar sentido fora da Igreja, pelas ruas e praças e que o “pão vivo descido do céu é dado para a vida do mundo” (Jo 6, 51).
Saímos em procissão caminhando e cantando: “O povo de Deus no deserto andava, mas à sua frente, alguém caminhava. O povo de Deus era rico de nada. Só tinha a esperança e o pó da estrada…”. Perdemos muito deste sentido do caminhar e nos acomodamos dentro das quatro paredes da Igreja e das nossas casas, como se o que estava fora, o mundo com suas contradições, dores e sofrimentos, não nos importasse. O Papa Francisco denunciava esta “globalização da indiferença”.
Os que se aderiam às primeiras comunidades eram chamados de “seguidores do Caminho” (At. 9, 2). Jesus apresentou-se também dizendo: “Eu sou o caminho” (Jo, 14,6). O evangelho de hoje sobre o Pão vivo descido do céu é a conclusão do discurso eucarístico no evangelho de João, não na última ceia, mas após a multiplicação dos pães para a multidão que passava fome. Temos que unir de novo vigorosamente o pão eucarístico com o pão que vem em socorro da multidão que não tinha nada para comer e recuperar o sentido profundo do Pai Nosso, que inicia sua segunda parte dizendo: “Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia” (Mt, 6, 110 ou como relata o evangelho de Lucas: “dá-nos hoje o pão de amanhã” (Lc, 11, 3). Depois de um dia todo em torno de Jesus num lugar deserto, os discípulos vêm lhe dizer: “O lugar é despovoado e a hora avançada; despede-os, para que vão aos campos e aldeias ao redor para comprar o que comer” (Mc 6,35-36). Para os discípulos, acabou a pregação e, agora, cada um tem que se virar e sair procurando onde “comprar” o que comer, sem se importar se, naquela multidão de pobres, a maioria não tinha dinheiro nenhum. A reação de Jesus é, porém, curta e direta, chamando-os à sua e também nossa responsabilidade: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6, 37). Ao caminhar pelas ruas com o Corpo de Cristo eucarístico, é para dizer que o Cristo se importa com cada uma das pessoas, à beira das calçadas, na janela ou porta das casas, com quem está preso em casa numa cadeira de rodas ou numa cama, com quem está desempregado e desanimado e para dizer que nós também nos importamos e queremos nos comprometer com sua dor e necessidade e buscar meios para exprimir nossa solidariedade. Eucaristia é pão repartido e distribuído na gratuidade a quem dele necessita, como fez Jesus: “Tomou os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, deu graças, partiu os pães e os foi dando aos discípulos para que o servissem e repartiu os peixes entre todos. Todos comeram e ficaram satisfeitos” (Mc 6,41-42). Boa celebração de Corpus Christi na sua comunidade.



