Quando o cachorrão preferido deixa de ter aquele sabor e, se nota que ingredientes e chapeiro já não são mais os mesmos, os clientes reclamam, relutam em trocar de lugar, não se afastam e esperam por mudanças. Mas se antes parecia bom e prometia melhorar, e era quase um Dogão campeão, porque caiu tanto assim de qualidade? As hipóteses para compor uma resposta, são variadas; a primeira coisa que vem em mente ao consumidor é que o dono do lanche tá com problema com quem faz as compras; o cara está escolhendo mal; o pão é meia boca; as vezes esfarela, a salsicha tá borrachuda, o molho de tomate tá muito ácido, o ketchup não é exatamente um Heinz, e a maionese as vezes desanda.
O dono do lanche tá muito ocupado atrás dos lucros e acredita na palavra do cara que faz as compras. “É tudo produto de primeira qualidade; é lote de oferta, não tem nada vencido e lhe custou um pechincha”, diz o comprador que fala como vendedor. Em boa fé, o dono ouve contente, o comprador faz o que pode com a grana que tem à disposição, e acerta, em um a cada sete produtos que traz para o trailler.
É aí que entra o terceiro elemento; é o chapeiro; se o chapeiro é dos bons, consegue corrigir a acidez do molho com uma pitadinha de açucar, troca o sal pelo manjericão, acerta no ponto da maionese, mantém tudo limpo, controla o tempo todo a temperatura e não deixa a chapa queimar; é ele que manda no pedaço e não deixa que o dono, o cara que fez as compras ou ainda o assistente, meter o bedelho e jogar na posição que quer deixando todo o resto descoberto.
O chapeiro é o cara que faz com que os ingredientes sejam um time de verdade, daqueles que deixam os clientes de boca aberta; um Dogão e não um doguinho. O problema começa quando o chapeiro é inexperiente, viu muito, sabe muita teoria, mas praticou pouco, e naquelas poucas chances que comandou a bagaça, deixou a chapa queimar e acabou sendo despedido.
Chapeiro inexperiente, precisa de tempo, mas quando a fila é grande e o tempo à disposição é quase zero, o dono tem que convocar um chapeiro mor para montar os lanches com aquilo que tem e depois trocar de comprador..
O que o cliente não aceita, é que após ter comido um cachorrão dos ruins, o chapeiro se apresente e diga que os ingredientes ainda não estão acostumados e estarem juntos. Fica parecendo que o dono tá numa sinuca de bico; sabe que precisa que seu lanche volte a ser competitivo, mas não quer gastar mais para trazer um chapeiro cascudo como alguns que circulam até mesmo na cidade onde ele tem seu comércio.
“Vocês tem que entender que tá ruim, mas tá melhorando; vão pagando aí, e não ouçam a imprensa que eu vou mexendo aqui e um dia a gente acerta; não olhem só para as coisas ruins, tem coisa boa, como a tubaína por exemplo”, diz o chapeiro já sem argumentos.
“O lanche tá ruim, queremos o antigo chapeiro”, protestam os clientes, que sabem que o antigo saiu porque eles reclamaram, mas para justificarem dizem, “tava ruim, mas tava melhor”.
É um dilema para se resolver em uma noite porque tem dois dias de folga que precisam ser usados para acertar as coisas, e depois tem jogo de novo, depois tem fila no caixa, menor mas tem, tem gente sentada esperando pelo antigo dogão, e quem ainda vai estar ali na terça, não quer que o recheio contenha carne de galináceos.
Enfim, se o Dogão for dos bons, o cliente sorri, fica mais tempo, gasta mais, enquanto assiste na minúscula tv do trailler, um futebol que nem precisa ser da máxima qualidade. Em Maringá, no lanche e no futebol, não pode faltar sabor, e o cliente só não desiste porque “o otimismo, é o perfume da vida”, mas como tudo tem um limite, já começou a xingar o dono do carrinho.
PS – O antigo chapeiro, tá desempregado
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