A retirada de Jesus para o norte, para os lados de Cesareia de Filipe, perto das faldas do Monte Hermon, onde estavam as nascentes do rio Jordão, marca uma virada fundamental no seu ministério. Ele se afasta da Galileia de Herodes, que acabara de degolar João Batista, para, logo em seguida, tomar o caminho oposto em direção a Jerusalém, na Judeia, onde sua vida será tirada (Mt 16, 21). “Pelo caminho”, como nos diz Marcos no seu evangelho (Mc 8, 27-30), ou depois de “orar num lugar afastado”, como nos assinala Lucas (Lc 9, 18-21), Jesus interpela os discípulos:

“Quem dizem os homens, que é o Filho do Homem?” (Mt 16, 13-20). As respostas coincidem: João Batista redivivo, como suspeitava o Rei Herodes, o profeta Elias, que havia multiplicado a farinha e o azeite na casa da viúva estrangeira de Sarepta e curado a lepra de Naaman, o general sírio, talvez Jeremias ou algum dos profetas, como arriscam outros (Mc 8, 28; Lc 9, 19). Jesus, porém, está interessado em saber a opinião pessoal dos próprios discípulos: “Mas, vós, quem dizeis que Eu sou?” (Mt 16, 15).
“Simão Pedro respondeu: ‘Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (16, 16). Temos, então, o diálogo registrado apenas pelo evangelho de Mateus, em que Jesus se dirige diretamente a Simão: “Respondendo, Jesus lhe disse: ‘Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus. Por isso, eu te digo que tu és Pedro (Cefas = rocha) e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus: tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus” (16, 17-19).
Simão, ganha o nome de Pedro, rocha, e recebe uma missão especial, que será reiterada na noite da despedida: “E tu, uma vez convertido, fortalece teus irmãos” (Lc 22, 32). A missão lhe será reconfirmada, depois de ter “chorado amargamente” (Lc. 22, 62), a covarde e vergonhosa negação do seu mestre e amigo na hora de sua prisão (Mc 14, 53 ss). Só terá reconfirmada sua especial missão, ao responder positivamente, por três vezes, que amava o mestre que, por três vezes, havia negada e dele ouvir: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros” (Jo 21, 15-19). A mesma interpelação de Jesus é dirigida a nós quotidianamente. Pagola nos diz a este propósito: Percebemos em Jesus “uma entrega aos seres humanos que desmarcara nosso egoísmo. Uma paixão pela justiça, que sacode nossas seguranças, privilégios e egoísmos. Uma ternura, que deixa à descoberto nossa mesquinhez. Uma liberdade, que rompe nossas mil escravidões e sujeições”.
Somos convidados “a seguir humildemente os seus passos, abrir-nos com Ele ao Pai, reproduzir os seus gestos de amor e ternura, olhar a vida com os seus olhos, compartilhar seu destino doloroso, esperar sua ressurreição. E, sem dúvida, rezar muitas vezes, do fundo do coração: ‘Creio, Senhor, mas ajuda à minha incredulidade’”. Rezemos pelo Papa Leão XIV, chamado a prosseguir a missão de Pedro, num mundo desafiado pela inteligência artificial (IA) e sobre o qual reflete com a Magnifica Humanitas. Agradeçamos também a Deus pelo pastoreio do Papa Francisco, que, de maneira profética e corajosa, soube conduzir o rebanho em tempos da crise climática, com a Laudato Si’; da pandemia, de desavenças e guerras entre os povos, com a Fratelli tutti.



