Neste domingo, assistimos a três deslocamentos significativos:
- no foco da liturgia, que se volta para a catequese batismal e passa do evangelho de Mateus para o de João;
- no cenário geográfico, com Jesus e os discípulos deixando a pregação e batizados às margens do rio Jordão na Judeia e indo para a Galileia, “tendo que passar pela Samaria”:
- e, finalmente, a passagem da pregação às multidões, para o inusitado encontro e a longa conversa pessoal de Jesus com uma mulher samaritana, à beira do poço de Jacó na aldeia de Sicar, a antiga Siquém.
Na antiga liturgia, o tempo quaresmal era todo ele concentrado nos últimos passos da catequese batismal para os catecúmenos que iriam receber os sacramentos da iniciação cristã, batismo, crisma e eucaristia, na Vigília da Páscoa. A vigília é ela mesma uma liturgia batismal, com a bênção da água, a recepção da Profissão de Fé, o Credo, o batismo, a imposição da veste batismal, a unção do Crisma e a festa eucarística com toda a comunidade, na celebração da Páscoa da Ressurreição. Neste e nos dois próximos domingos, é o evangelista João quem nos guia:
- com o símbolo da ÁGUA, no seu diálogo com a samaritana e sua afirmação, “Eu sou a água viva” (Jo 4, 5-42), neste III domingo;
- com o símbolo da LUZ, na cura do cego de nascença: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 9, 1-41), no IV domingo;
- com o símbolo da VIDA, com sua vitória sobre a morte, na ressurreição de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11, 1-45), no quinto domingo.
No diálogo de Jesus com a samaritana, pode-se ressaltar primeiramente, os “estranhamentos” da mulher e depois dos discípulos: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” (Jo 4, 9). E João comenta e esclarece: “De fato, os judeus não se dão com os samaritanos” (4, 9b). Os discípulos haviam ido providenciar comida na cidade. Chegaram ao final da conversa e diz o evangelho: “Nesse momento chegaram os discípulos e ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Mas ninguém perguntou: ‘Que desejas?’ ou ‘Por que falas com ela?’ “(4, 27). Há um crescendo na busca tateante da samaritana para decifrar quem é aquele judeu que lhe pede água para beber e lhe faz uma promessa desconcertante: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva’” (4, 10). A mulher disse a Jesus: ‘Senhor, nem sequer tens balde e o poço é profundo. De onde vais tirar água viva? Por acaso es maior que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço e dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?’” (4, 11-12). “Jesus lhe respondeu: ‘Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna’” (4, 13-14). Depois de Jesus lhe dizer que fala a verdade, ao responder que não tem marido, pois já teve cinco e o que está com ela não é seu marido, ela exclama: “Vejo que es um profeta” (4, 20). À sua dúvida se era em Jerusalém na Judeia ou no monte Garizim na Samaria, que se devia adorar a Deus, Jesus responde: “Acredita-me, mulher, está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, esses são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e aqueles que o adoram, devem adorá-lo em espírito e verdade” (4, 21). A mulher adianta um passo a mais no seu escrutínio acerca da identidade de Jesus: “Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas” (4, 25). Jesus revela então a esta mulher o mistério de sua identidade messiânica: “Sou eu que estou falando contigo”. De imediato, a mulher tida por muitos como prostituta na cidade torna-se a anunciadora, a apóstola, da boa notícia de Jesus, o Profeta, o Messias, para os renegados samaritanos, como Maria Madalena o foi para os apóstolos após a ressurreição: “Então, a mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: ‘Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?” (4, 21-22). Jesus aceitou o convite dos moradores da cidade e ficou por dois dias com eles, com surpreendentes adesões a ele. À identidade de Profeta e Messias, intuída pela mulher, eles acrescentaram a de Salvador do Mundo: “Muitos samaritanos daquela cidade, abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhara: ‘Ele me disse tudo o que eu fiz’, mas lhe disseram também: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (4, 42).



