O cenário para o evangelho deste domingo contrasta com o dos domingos precedentes. Não estamos mais na Judeia, ao longo do rio Jordão, onde João Batista pregava e onde batizou Jesus, nem à beira do lago de Genezareth, na Galileia, em cujas praias Jesus chamou seus primeiros discípulos, Simão e seu irmão André, Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhes:
“Vinde comigo, e vos farei pescadores de homens” (Mt. 4, 19). Mateus narra que, “tendo Jesus visto multidões, subiu a um lugar alto e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se e Jesus começou a ensiná-los” (Mt 5, 1-2).
Depois daquele curto e incisivo anúncio: “Arrependei-vos porque está próximo o reinado de Deus” (Mt 4, 17), coube a Jesus explicitar para os discípulos e para as multidões, que vinha atraindo, este “reinado de Deus”, diferente daquele reinado dos homens, erguido com violência, exploração e desprezo dos pequenos e necessitados. E vai fazê-lo de modo surpreendente, não estabelecendo uma lista de mandamentos e obrigações religiosas, ou impondo um redobrado peso sobre os últimos, mas anunciando-lhes: “Alegrai-vos e exultai…” (5. 12). “Felizes, bem-aventurados aqueles e aquelas…” diz Jesus e desenrola uma lista de oito bem-aventuranças, que começam com os pobres, melhor dizendo, com os empobrecidos e termina com aqueles que são perseguidos, por causa da justiça, passando pelas situações de extrema pobreza e penúria, pelas lágrimas trazidas por sofrimentos, desenganos, pela busca quase sempre em vão, por justiça e reparação:
“Felizes os pobres de coração, porque o reinado de Deus lhes pertence. Felizes os afligidos, porque serão consolados. Felizes os despossuídos, porque herdarão a terra. Felizes os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados” (5, 3-6).
Jesus muda o registro e mira nossos corações. São corações com entranhas de misericórdia, como o próprio Deus? São corações puros e espíritos que, buscam construir a paz, em vez de fomentar intrigas e divisões? “Felizes os misericordiosos, porque os tratarão com misericórdia. Felizes os limpos de coração, porque verão a Deus. Felizes os que procuram a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque o reinado de Deus lhes pertence” (5, 7-10). Como fecho, Jesus retoma o tema da perseguição, que ele mesmo e seus seguidores irão sofrer, e compara a situação dos perseguidos com a dos profetas: “Felizes vós, quando vos injuriarem e perseguirem e vos caluniarem de tudo, por minha causa. Ficai contentes e alegres, pois vosso prêmio no céu será abundante. Da mesma forma perseguiram os profetas que vos precederam” (5, 11-12). Esta abertura do sermão da montanha, que se estende do capítulo quinto ao sétimo do evangelho de Mateus é, no dizer de Schökel, “como a ‘constituição’ do povo de Deus, o protocolo da nova aliança, o Manifesto do Messias Salvador. Seu discurso é exigência incondicional, convite a uma constante superação de si mesmo, denúncia de mesquinhezas e Infidelidades, oferta da misericórdia de Deus. Através dessa comunidade limitada, dirige-se à comunidade humana, fermento para uma transformação da história”.



