No domingo de Ramos, ouvimos o relato da Paixão e Morte de Jesus segundo Mateus. Para a Sexta-feira santa a liturgia sempre nos oferece o relato que João e suas comunidades conservaram na mente e no coração sobre as últimas horas de Jesus. Para Schökel, João tem a preocupação não apenas de registrar os fatos, mas de desvendar o sentido da morte de Jesus. Ele concentra em dois capítulos (18 e 19) seu relato da paixão e morte de Jesus repartido em cinco momentos: prisão de Jesus (18, 1-13); interrogatório diante de Anás, com a negação de Pedro (14-27); interrogatório diante de Pilatos e sua condenação à morte (18, 28-19, 16a); crucifixão e morte (19, 16b-37); sepultamento (38-42). Tudo está orientado para que se cumpra o que João Batista anunciou a respeito de Jesus: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). O evangelista João faz coincidir a morte de Jesus, com o dia e a hora em que todas as famílias judaicas sacrificavam o cordeiro para festejar a Páscoa. Jesus é o cordeiro da Páscoa da nova aliança no seu sangue Por isso, os soldados romanos, depois de quebrarem as pernas dos dois condenados, para apressar a sua morte, constataram que Jesus já estava morto. Não lhe quebraram as pernas, mas com um golpe de lança abriram o seu lado e “imediatamente jorrou sangue e água”, símbolos sacramentais da água do batismos e do sague eucarístico. Cumpria-se assim a profecia de Zacarias: “Não quebrarão nenhum dos seus ossos” e também o rito em que ao cordeiro pascal não se podia quebrar osso algum. Se no relato de Marcos, Mateus e Lucas, assoma no Getsemani a angústia e o desamparo do homem Jesus, que chega a suar sangue, segundo São Lucas e que deixa escapar seu atormentado pedido a Deus: “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice” (Mt 26, 39), o evangelista João suprime esta cena da agonia de Jesus no horto das Oliveiras. E quando Pedro corta a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote, Jesus o repreende por responder com violência à violência dos soldados: “Guarda sua espada na bainha”. E acrescenta: “Não vou beber o cálice que o Pai me deu?” (Jo, 18, 11).
João deixa igualmente de registrar o seu derradeiro e angustiado grito, guardado pela comunidade em aramaico, a língua materna de Jesus: “Eli, Eli, lema sabachtani”, que quer dizer, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46).
No lugar deste grito de socorro, João deixa transparecer do fundo desta humanidade ferida, a serena confiança naquele que ele chama de Pai e a quem entrega sua vida e sua morte: “Jesus tomou o vinagre e disse: Tudo está consumado’. E inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19, 30). Antes, porém, ele cumpre o derradeiro dever filial de quem irá deixar no desamparo sua mãe viúva prestes a perder seu filho único. Não quer também deixar sem amparo o mais jovem dos seus discípulos que tirou de seus pais e do seu ofício de pescador à beira do lago, para segui-lo pelos caminhos da Galileia. É assim que o próprio João relata esse momento íntimo ao pé da cruz, não registrado pelos três outros evangelistas: “Perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus ao ver sua mãe e, ao seu lado, o discípulo que ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, este é o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Esta é a tua mãe’. Dessa hora em diante, o discípulo a acolheu consigo’” (19, 25-27). Diante da escandalosa morte de um inocente, assim declarado por quem o entregou para ser crucificado, dizendo “eu não encontro nele crime algum”, somos confrontados com a morte de inocentes em todas as guerras em curso, com o genocídio na Faixa de Gaza e no Sudão do Sul, com a violência em nosso país que só no trânsito ceifou a vida de mais de 50,000 pessoas, confrontados com a guerra entre fações criminosas e com a violência policial incentivada por autoridades com apoio e aplauso da população em chacinas como as do Rio de Janeiro e da Baixada santista, confrontados com o espantoso número de feminicídios, confrontados com a indiferença frente ao aumento de pessoas em situação de rua em todo o país. Não podemos lavar nossas mãos, como fez Pilatos e dizer: Nada tenho a ver com isso. Que a morte de Jesus nos leve a seguir os seus passos, a estar ao lado dos que buscam reverter situações injustas e abraçar publicamente os empobrecidos e suas causas.


