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Home CULTURA

Leitura resiste ao tempo acelerado e se reinventa na UEM

No Dia do Livro, universidade destaca leitura como formação, experiência e resistência em tempos digitais

Por O Fato Redação
22/04/2026
em CULTURA
foto: ASC/UEM

foto: ASC/UEM

Em meio à velocidade das telas, à multiplicação de conteúdos e à disputa constante pela atenção, a leitura de livros segue ocupando um lugar singular na formação humana. Celebrado em 23 de abril, o Dia Mundial do Livro propõe uma reflexão sobre o papel da literatura na sociedade contemporânea. Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), essa discussão atravessa diferentes espaços e vozes passando pela sala de aula, rádio e às bibliotecas, reunindo experiências que mostram que, mais do que um hábito, ler é uma forma de estar no mundo.

Para a professora Ana Cristina Teodoro da Silva, do curso de Comunicação e Multimeios e coordenadora do Clube de Leitura Água Viva, a literatura não pode ser reduzida a uma prática utilitária ou a um simples acúmulo de leituras. “A literatura não tem compromisso com o que a gente chamaria de real”, afirma, ao diferenciar o texto literário da escrita acadêmica. “Na literatura, a gente pode viver outras vidas, imaginar outros tempos e espaços.” Segundo ela, é justamente essa liberdade que torna a leitura literária fundamental também para a própria produção de conhecimento. “Tem um momento da criação científica que os procedimentos não conseguem tocar, e a literatura toca”, explica.

Essa dimensão formativa da literatura aparece de forma ainda mais evidente quando associada ao conceito de humanização. A docente recorre ao crítico Antônio Cândido para reforçar que o acesso à literatura deve ser entendido como um direito. “A literatura é um caminho de humanização”, diz. “A gente precisa desse espaço para pensar, para imaginar, para sonhar.” Em um contexto marcado por excesso de estímulos e demandas constantes, a leitura assume também uma função de cuidado com a mente. “É como se a literatura fosse limpando, filtrando a nossa cabeça, que está tão inflacionada de estímulos”, observa.

Ainda assim, a presença da literatura no cotidiano, inclusive no ambiente universitário, enfrenta desafios. A própria professora reconhece que o ritmo acadêmico muitas vezes afasta estudantes e docentes da leitura por prazer. “A universidade também está tomada por esse produtivismo”, afirma. “A gente forma para o mercado, mas não apenas isso, a gente forma pessoas.” Nesse cenário, ela defende uma mudança de perspectiva em relação ao ato de ler, questionando a lógica quantitativa que ganha força nas redes sociais. “Ler não é consumir”, enfatiza. “Eu prefiro que os alunos leiam menos e com mais qualidade.” Para ela, o valor da leitura está na experiência, e não no volume. “Não importa quantos livros você leu por ano. O que importa é ter alguma relação com o universo literário.”

Essa relação, no entanto, exige tempo e disposição, elementos cada vez mais escassos no mundo contemporâneo. Como alternativa, a professora sugere um exercício simples: “Uma hora por semana. Eu acho que todo mundo consegue tirar uma hora do celular”, provoca. “Deixe o celular de lado e se dedique à leitura. No começo é difícil, mas depois você entra naquele tempo e voa.” A leitura, nesse sentido, passa a ser entendida também como um gesto de resistência. “É uma resistência para recuperar a nossa humanidade”, afirma. “A gente está vivendo num mundo que exige demais, e a literatura nos lembra que existe um outro tempo.”

Na UEM, esse contato com os livros ganha também dimensão concreta em um dos principais espaços de acesso ao conhecimento: a Biblioteca Central (BCE), considerada a maior biblioteca universitária do Paraná. Com um acervo amplo e diversificado, que reúne livros, periódicos, obras raras e materiais digitais, o espaço atende não apenas a comunidade acadêmica, mas também o público externo, funcionando como um importante polo de difusão cultural e científica na região.

Em seus corredores e salas de leitura, convivem estudantes em formação, pesquisadores e leitores em busca de novas experiências. Em tempos de transformação nos modos de acesso à informação, a BCE reafirma a importância do livro como ferramenta de conhecimento aprofundado e de construção crítica.

Se na biblioteca a literatura se materializa em acervos e possibilidades de acesso, no rádio ela ganha novas formas de circulação. A UEM FM, emissora educativa da universidade, tem sido um espaço importante de valorização da cultura e do pensamento crítico, abrindo espaço para programas dedicados ao universo dos livros. É o caso do “Bibliofonia”, apresentado pelo professor Fábio Vianna, do Departamento de Ciências Sociais, que propõe um olhar ampliado sobre a leitura. “Livros e tudo que se encontre relacionado com essa forma de comunicação”, resume o docente ao descrever a proposta do programa, que aborda desde obras consagradas até edições raras, autores redescobertos e publicações pouco conhecidas.

Ao longo das edições, o programa explora não apenas os conteúdos literários, mas também o próprio universo do livro, desde as editoras, sebos e até diferentes formas de circulação. Para Vianna, essa abordagem é possível justamente pelo caráter público da emissora. “A UEM FM sempre foi um espaço fabuloso para um programa sobre livros”, afirma. “Trata-se de uma emissora de caráter educativo e sem fins comerciais.” Essa condição garante liberdade editorial e permite discutir obras fora dos circuitos comerciais mais visíveis. “Não raro, falamos de livros com edições esgotadas, que não estão disponíveis nem em livrarias nem na internet”, explica.

Ao mesmo tempo, o professor chama atenção para as transformações no cenário da leitura. “Num mundo saturado de informações, como convencer alguém de que ler um livro pode ser mais interessante que a rolagem infinita do celular?”, questiona.

Nesse contexto, a atuação da Editora da UEM, a Eduem, amplia de forma significativa o incentivo à leitura e à circulação do conhecimento. Responsável pela publicação de obras acadêmicas, científicas e culturais, a editora torna acessível a produção intelectual desenvolvida na universidade, contribuindo para o diálogo entre diferentes áreas e para a difusão do saber para além do ambiente acadêmico.

Essa atuação ganha ainda mais visibilidade com a realização da Semana do Livro, evento já tradicional no calendário da universidade, que transforma a BCE em um espaço ampliado de encontro entre leitores, autores e editoras. O objetivo do evento é reunir milhares de títulos com preços acessíveis, incluindo obras da própria Eduem e de outras editoras universitárias do país. Diante disso, a iniciativa promove não apenas o acesso ao livro, mas também a circulação de ideias e a valorização da leitura como prática social.

ASC/UEM

Tags: comunicaçãodia mundialliteraturamultimediosreflexãotecnologiauemuniversidade estadual de maringá
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