Terminado o discurso das parábolas, Mateus narra a degola de João Batista a mando de Herodes, para atender à raiva vingativa de Herodíades, cuja união com o rei era denunciada pelo profeta (Mt 14, 1-12). Levaram a notícia a Jesus e ele partiu sozinho de barco para um lugar deserto e afastado, para enfrentar a dor pela perda do amigo, o profeta Batista, e para lidar com a sombra ameaçadora da perseguição de Herodes, que passa a rondar a ele e a seus discípulos (Mt 14, 1-12).
Para onde foi, acorreram das aldeias vizinhas multidões. Diz o evangelho que Jesus “encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (14, 14). Ao entardecer, os discípulos foram até Jesus e disseram-lhe: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida. Jesus, porém, lhes disse: ‘Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (14, 15-16). Como dar de comer a tanta gente, com o pouco que tinham: apenas cinco pães e dois peixes? E a desculpa dos discípulos é também a nossa nos dias de hoje.
Sentimo-nos impotentes diante da fome de tanta gente e das necessidades dos empobrecidos. Acabamos agindo como os discípulos: que eles se virem, já que com o pouco que temos, nada podemos fazer. Jesus pede que tragam os pães e os peixes e “mandou que as multidões se sentassem na grama. Então, pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos aos céus e pronunciou a bênção. Em seguida, partiu os pães e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões” (14, 18-19).
A lógica do Reino dos Céus, não é a lógica do mercado, onde come quem tem dinheiro, para comprar o pão. Ali, ficam excluídos os empobrecidos e os que nada têm. A lógica do Reino é a do pão partilhado. Quando se partilha, todos comem, ninguém é excluído, todos saem satisfeitos e, em vez de faltar, sobra: “Todos comeram e ficaram satisfeitos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios” (14, 20). Este acontecimento, de tão importante e decisivo, é narrado seis vezes nos evangelhos: duas vezes em Mateus (14, 13-31 e 15, 32-38) e Marcos (6, 30-44 e 8, 1-10); uma vez em Lucas (9. 10-17) e uma em João (6, 1-14). É algo fundante da proposta do Reino, curar os enfermos, socorrer os famintos, com o pão partilhado entre todos, sem exclusão de nenhuma ordem.
Apenas Mateus, porém, vai dizer: “E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças”. Imaginem quanta gente seria, com aquelas mães todas com filhos pequenos ao colo e outros mais, agarrados à sua saia. O profeta Isaías antevia os tempos messiânicos ao conclamar: “… vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga” (Is 55, 1).



