Mateus com o sermão do monte e as bem-aventuranças apresenta a proposta de Jesus e do seu Reino, reino de graça e libertação para os pobres, os aflitos, os perseguidos por causa da justiça (Mt 5, 1-12). Recolhe, na sequência, as palavras e ensinamentos de Jesus ao longo de três capítulos (5-7). Mostra então, na prática, as ações transformadoras de Jesus, diante das dores e desamparos humanos: cura o leproso, o servo do centurião romano, a sogra de Pedro, acalma a tempestade no mar, expulsa os espíritos maus, perdoa os pecados do paralítico e lhe diz:
“Levanta-te, pegue sua cama e vá para casa”; ressuscita a filha do chefe da sinagoga, cura a mulher que sofria há doze anos de um fluxo de sangue e devolve a vista a dois cegos (8 e 9). Depois desses encontros marcantes com tantas pessoas afligidas por enfermidades e infortúnios, Jesus volta seu olhar para os que se aglomeravam ao seu redor. Não eram poucos, nem muitos, apenas, mas sim muita gente e continua sendo assim, ainda hoje: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não tem pastor” (9, 36).
Será que perdemos essa capacidade de sermos tomados, como Jesus, de compaixão diante do sofrimento alheio; de perguntar-nos sobre as causas de graves dores coletivas e de nos dispormos a buscar saídas concretas para modificar essas situações? “As multidões estavam cansadas e abatidas”, diz o evangelho. Vivemos um grave adoecimento coletivo com as condições de trabalho, moradia, transporte, precariedade dos serviços de saúde. Há um cansaço visível, estresse e muitas pessoas ansiosas e com depressão. É difícil entrar nos trens e metrôs de São Paulo às quatro e meia da manhã. Estão lotados. Os que conseguem um assento, começam a cochilar. Outros dormem mesmo em pé. Mãe que trabalhou fora a semana toda, o seu domingo é para faxinar a casa, lavar a roupa, botar ordem nas ordens e voltar correndo na segunda-feira para continuar trabalhando. Pai que sai de madrugada e só volta pelas oito, nove da noite e encontra os filhos dormindo, no domingo, só quer dormir e ir de tarde para uma pelada ou ver uma partida de futebol na TV. Temos uma oportunidade de ouro para nos empenhar por uma sociedade diferente e lutar contra uma economia que mata. O fim dessa jornada exaustiva de trabalho por seis dias na semana entra nessa compaixão estrutural pelas “multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. Jesus chama a atenção dos discípulos dizendo que a messe é grande e os operários são poucos. Decide escolher doze para estarem junto com ele nessa tarefa imensa, como relata Marcos: “Então, Jesus constituiu o grupo dos Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar” (Mc 3, 14). Lucas nos diz que, para tanto, ele subiu a uma montanha e passou a noite em oração (Lc 6, 12-16). Aos que chamou, Jesus “deu o poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade” (10, 1). Deu-lhes ainda as seguintes recomendações: “Não deveis ir aonde moram os pagãos nem entrar nas cidades dos samaritanos. Ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel!” (10, 5-6). Mais à frente a mulher pagã, sírio-fenícia, irá mudar com sua insistência em favor de sua filha enferma, essa posição de Jesus que aceita curar a menina e ainda faz o maior elogio à sua mãe: “Mulher grande é a tua fé. Seja feito como desejas. E, desde aquela hora, a filha ficou curada” (15, 28). Ao final do evangelho de Mateus, toda e qualquer barreira é derrubada e a fé deve ser anunciada a todos os povos, sem exceção (28, 19). Para concluir, uma síntese do que devem fazer os discípulos: “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios’”. Termina com a regra de ouro de toda missão: “DE GRAÇA RECEBESTES, DE GRAÇA DEVEIS DAR!” (10, 7-9).



