“Bendita entre as mulheres” foi a saudação jubilosa de Isabel grávida, embora já idosa, “pois para Deus nada é impossível” (Lc 1, 37), ao receber a inesperada visita de sua jovem prima Maria, também grávida do Filho do Altíssimo.
Isabel cheia do Espírito Santo manifestou ainda sua surpresa:
“Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?” (Lc 1, 39-56).
Maria respondeu louvando a Deus que olhou para sua humildade e nela operou maravilhas, pois “santo é o seu nome e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos que o respeitam” (1, 46-48)
Esse olhar cheio de mútuo encantamento e alegria, de louvor e gratidão a Deus, volta-se também para a situação de fome e desamparo que se abate sobre a maioria do povo da Palestina, sob a dura ocupação do império romano.
Mostra ao lado da face de misericórdia, o rosto de Deus que se coloca ao lado do povo oprimido e compromete-se com sua libertação:
“Ele mostrou a força do seu braço, dispersou os soberbos de coração.
Derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes.
Encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (1, 51-52).
Maria não fez para Isabel, aquela visitinha apressada de médico ou de padre. Ficou ainda o tempo necessário para o nascimento da criança, pois Isabel já estava de seis meses:
“Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa” (1, 36).
Para festejar a Assunção de Maria, o evangelho fala do seu quotidiano, de sua viagem que teria durado uma boa semana, se tivesse arrumado um burrinho e muito mais se tivesse feito a pé este caminho de Nazaré na Galileia até Ain Karim, nas montanhas da Judeia, nas proximidades de Jerusalém.
Partiu “apressadamente”, pois a pessoa necessitada tem sempre urgência de socorro e de ajuda.
Essa humilde solidariedade de Maria, seu desvelo pela prima idosa e pelo menino que estava para nascer é interpretada pelo Apocalipse, na primeira leitura da celebração de hoje, como parte daquele grande embate que opõe o cuidado com a vida, com toda vida – da natureza e das pessoas – e as forças de destruição e morte; o confronto entre a mulher, símbolo de vida e esperança, e o dragão, encarnando a maldade tanto de pessoas, como do sistema, que patrocina guerras, ódios e destruição :
“Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas.
Então apareceu outro sinal no céu; um grande dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre a cabeça, sete coroas. Com a cauda varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra. O dragão parou diante da mulher que estava para dar à luz. E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar as nações com cetro de ferro. Mas o Filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar” (Ap. 1, 3-6).
Na Assunção de Maria, festejamos a vitória da vida já prometida em Jesus, ressuscitado por Deus, como primogênito dentre os mortos.
A Assunção, antecipa para Maria, aquela ressurreição final prometida a todos humanos, mas que já resplandece desde já, na humanidade de Maria, a mãe do Salvador.
Que essa festa reforce em nós a esperança e o compromisso concreto em fomentar a vida, a vida dos mais vulneráveis e empobrecidos e a vida ameaçada de toda a criação.



