A Universidade Estadual de Maringá (UEM) obteve a concessão de uma patente para duas moléculas estudadas no desenvolvimento de medicamentos contra infecções fúngicas sistêmicas. Os compostos pertencem à classe dos 1,3,4-oxadiazólicos e são pesquisados como possíveis alternativas diante das limitações dos tratamentos disponíveis.
A carta patente foi expedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 8 de setembro. A pesquisa foi desenvolvida em colaboração entre UEM, Universidade de Brasília (UnB) e Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), com participação de pesquisadores de diferentes instituições.
Segundo a professora Érika Seki Kioshima Cotica, do Departamento de Análises Clínicas e Biomedicina (DAB) da UEM, as infecções fúngicas ainda contam com poucas opções terapêuticas. Entre os desafios estão a toxicidade de alguns medicamentos, as interações com outros fármacos e a existência de fungos resistentes ou que não respondem a determinados tratamentos.
A estratégia adotada pelos pesquisadores partiu de um alvo definido: a tioredoxina redutase, enzima essencial aos fungos. Por métodos computacionais, foram selecionadas moléculas com potencial para inibir essa enzima. A abordagem difere daquela em que primeiro se identifica a ação antifúngica de uma substância para depois descobrir seu alvo.
“Estamos trabalhando com o desenvolvimento de uma molécula direcionada para um alvo, o qual queremos bloquear e que é exclusivo de patógenos”, explica Cotica. Essa abordagem, de acordo com a pesquisadora, aumenta a possibilidade de reduzir problemas de toxicidade e reações adversas.
Um dos principais focos dos estudos é a paracoccidioidomicose, doença que acomete pessoas principalmente no Brasil e em outros países da América Latina. As moléculas também apresentaram atividade contra Candida albicans, associada a infecções generalizadas, e Cryptococcus neoformans, fungo responsável pela meningite fúngica.
Os pesquisadores identificaram ainda ação contra Mycobacterium tuberculosis, bactéria responsável pela tuberculose. Essa aplicação faz parte de outro pedido, que permanece em análise no INPI.
Da pesquisa à patente
A investigação começou na UnB, no grupo coordenado pela professora Maria Sueli Soares Felipe e dedicado a novos tratamentos para infecções fúngicas. Cotica participou do trabalho no pós-doutorado e, na UEM, deu continuidade à linha de pesquisa com a professora Terezinha Inez Estivalet Svidzinski.
Um projeto reuniu UEM, UnB e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Laboratório Lorrain de Pesquisa em Informática e suas Aplicações (Loria), na França. Durante um estágio no laboratório francês, Cotica participou da seleção das moléculas. A Unemat colaborou nessa etapa com estudos computacionais conduzidos pela professora Ana Karina Abadio.
Os compostos foram avaliados em laboratório e em testes com camundongos. Agora, os pesquisadores desenvolvem formulações e buscam derivados das moléculas com maior atividade. De acordo com a pesquisadora, a atividade antifúngica desses compostos ainda não havia sido descrita.
O projeto foi, nas palavras dela, “o pontapé inicial” para a formação de um grupo de pesquisa multidisciplinar dedicado às infecções fúngicas. A UEM se destaca pelo setor de Micologia Médica, que, junto ao Laboratório de Ensino e Pesquisa em Análises Clínicas (Lepac), é referência no diagnóstico dessas doenças.
Próximas etapas
O próximo passo, segundo a pesquisadora, é avançar nas formulações para a transferência da tecnologia. Algumas aproximações com indústrias farmacêuticas já foram feitas.
O grupo já captou recursos da Fundação Araucária, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O grupo também participa de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) voltado à continuidade dos estudos.
Com esta concessão, a UEM chega a 80 patentes concedidas em sua história e aguarda a análise de outros 64 pedidos depositados no INPI.
ASC/UEM




