UNICAMP: Curativo líquido pode acelerar a cicatrização de feridas em até 50%
A solução desenvolvida na FEQ Unicamp tem secagem rápida, é resistente à água e ambientalmente sustentável. Empresa-filha da Universidade licenciou a tecnologia para acelerar desenvolvimento comercial do curativo
O uso de curativos tradicionais no tratamento de feridas pode causar desconforto aos pacientes e dificuldades que atrasam a recuperação. O banho e a substituição dos curativos costumam incomodar ou até arrancar o tecido novo em formação, por exemplo. Outra desvantagem é a limitação dos movimentos, pois os curativos geram atrito nos ferimentos localizados em áreas de articulação, como no cotovelo.
Inventores premiados
Foto: Igor Alisson – Inova Unicamp
Rubens Maciel Filho, André Luiz Jardini Munhoz, Ana Flávia Pattaro e Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon foram premiados na categoria Propriedade Intelectual Licenciada em 2026.
A fim de melhorar a qualidade de vida de pacientes em tratamento de feridas, pesquisadores da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma tecnologia biocompatível, segura e que não polui o meio ambiente. Na prática, trata-se de um curativo líquido aplicável diretamente na região lesionada. A tecnologia cria uma película protetora transparente sobre o ferimento em até 45 segundos, dispensando o uso de gaze, esparadrapo ou outros elementos sobre a ferida e acelerando a cicatrização natural do machucado. O tempo de recuperação do paciente pode diminuir em até 50%, segundo os pesquisadores. A pesquisa foi coordenada pelo professor Rubens Maciel Filho, com a participação dos pesquisadores André Luiz Jardini Munhoz, Ana Flávia Pattaro e Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon. O curativo foi licenciado exclusivamente para a Dermbio Biotech, empresa spin-off acadêmica da Unicamp, que tem a participação dos próprios inventores, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento comercial da tecnologia. A empresa já havia licenciado uma outra tecnologia da Unicamp para produção de polímeros a partir do ácido lático. O licenciamento das tecnologias foi conduzido com o suporte estratégico da Agência de Inovação Inova Unicamp.
A Dermbio Biotech é uma empresa-filha da Unicamp, por ter sido fundada por um docente, dois pesquisadores e uma egressa da Universidade, e também é considerada uma spin-off acadêmica por ter sido criada a partir do resultado de uma pesquisa produzida na Unicamp, tendo sido premiada no Prêmio Inventores Unicamp, edição 2024.
Limitações dos tratamentos tradicionais de feridas
Os métodos convencionais de proteção e de cobertura de ferimentos (gazes, ataduras, fitas adesivas e outros) podem causar desconforto ao paciente durante a substituição ou remoção do curativo que frequentemente arranca o tecido novo em formação, atrasando a cura. O banho pode ser mais um obstáculo que posterga a recuperação, com esfregação acidental e aumento da umidade na área machucada. Outro problema é o risco de infecções, uma vez que a manipulação de instrumentos não estéreis e a retenção de umidade favorecem a proliferação de bactérias no local ferido.
Para Maciel Filho, o diferencial do curativo líquido está na eliminação completa do contato físico com a região afetada. “O ferimento afeta a qualidade de vida e a pessoa sacrifica muitas atividades que precisam ser realizadas no dia a dia. O grande atrativo e a grande vantagem da tecnologia em que a Dermbio se baseou é se propor a desenvolver um novo método de cobertura da ferida sem haver nenhum toque nela, sem você estar colocando uma gaze ou atadura. Estamos formando um filme inteligente no sentido de que ele interage muito bem com a pele e cria uma condição de barreira contra agentes externos que causam infecção, servindo como substrato para acelerar a cicatrização da ferida”, aprofunda o professor e pesquisador.
A tecnologia desenvolvida na FEQ Unicamp utiliza um polímero reconhecido por sua excelência em biocompatibilidade com o corpo humano. No entanto, segundo o coordenador da pesquisa, um desafio histórico enfrentado por cientistas e pelas indústrias estava no processamento e na solubilização desse material. Os métodos populares exigiam o uso de solventes tóxicos para transformar o polímero em líquido, o que inviabilizava a aplicação sobre a pele humana, afirma o inventor.