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Cientistas publicam chamada para ação de visibilidade de pessoas LGBTI+ durante a pandemia

Em publicação científica divulgada em biblioteca virtual da OMS, pesquisadores sugerem políticas para minimizar impactos em grupos sociais mais vulneráveis

Por O Fato Redação
13/11/2020
em PARANÁ
Cientistas publicam chamada para ação de visibilidade de pessoas LGBTI+ durante a pandemia
                
                    Em publicação científica divulgada em biblioteca virtual da OMS, pesquisadores sugerem políticas para minimizar impactos em grupos sociais mais vulneráveis
Um grupo de pesquisadores em saúde divulgou uma carta aberta com o objetivo de chamar atenção para as desigualdades de gênero nos sistemas de saúde da América Latina, com destaque para a pandemia de Covid-19. Estudos anteriores realizados pelos cientistas mostram que o cenário se torna ainda mais desafiador em países em desenvolvimento, como o Brasil.

O trabalho foi publicado na revista científica internacional Sexualities e ganhou destaque na Biblioteca Virtual em Saúde, ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS) que reúne o conhecimento produzido durante a pandemia. O documento é assinado por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS).

A publicação científica sugere práticas como estimular abordagens de saúde sem discriminação, atendimento humanizado e respeito às várias configurações familiares para minimizar os impactos da pandemia em grupos sociais mais vulneráveis. A chamada para uma ação interseccional orienta medidas de apoio para grupos duplamente marginalizados, como pessoas LGBTI+ em situação de rua, profissionais do sexo, pessoas com deficiência, migrantes e refugiados e minorias étnico-raciais. Segundo o trabalho científico, esses grupos não sofrem apenas com a invisibilidade nos sistemas de saúde, mas também no ambiente social e político.

De acordo com o professor Marcos Signorelli, da Câmara de Saúde Coletiva do Setor Litoral (UFPR Litoral) e um dos autores do trabalho, as políticas de inclusão devem ser em um esforço coletivo. “É necessária uma abordagem intersetorial, com profissionais da educação, da assistência social, da segurança pública. Todo mundo tem que estar capacitado e qualificado para abordar esse público”, pontua.

“É uma contribuição da universidade pública contra a circulação de informações imprecisas ou falsas, contra as fake news”, afirma Daniel Canavese, do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um dos autores do manifesto.
A falta de visibilidade do status LGBTI+ esbarra na falta de informações oficiais relacionadas à saúde. A coleta e monitoramento de dados permite uma análise mais aprofundada sobre o cenário epidemiológico da Covid-19 em diferentes segmentos sociais. “A gente vem estudando vários dados em relação à população LGBTI+. A partir deles, são desenvolvidas várias pesquisas e publicações em conjunto, com pesquisadores e pesquisadoras de todo o Brasil”, aponta Signorelli, que também lidera o grupo de pesquisa Território, Diversidade e Saúde (TeDiS/UFPR).
Desrespeito e rejeição podem afetar saúde mental
O professor Marcos é um dos pesquisadores que assina a carta e explica que esse risco pode ser maior durante a pandemia. “A saúde mental é um dos problemas que mais afeta a população LGBTI+. Estudos revelam que esse grupo é cinco vezes mais suscetível ao suicídio do que a população não LGBTI+”, alerta.
Segundo o documento, existe uma série de características que podem causar danos à saúde mental de pessoas LGBTI+, como o aumento do risco de depressão, ansiedade e automutilação. Além da rejeição familiar, a expulsão de casa também pode agravar esses danos. O despejo têm consequências ainda mais sérias durante a pandemia, como o risco de contaminação por Covid-19 e outras doenças.
“Travestis e pessoas trans são as que mais sofrem com a não aceitação da família. Muitas vezes são expulsas de casa e vão parar em pensionatos e repúblicas, em condições de moradia precárias. Quando não há respeito pela orientação sexual ou identidade de gênero, o isolamento domiciliar também favorece um ambiente de opressão e violência doméstica”, afirma o pesquisador Marcos.
Abordagem interseccional como resposta à discriminação
“Devemos fomentar as discussões sobre gênero, orientação sexual, raça, cor e etnia. Esses marcadores percorrem os corpos de todos nós. A universidade tem o dever de escutar, compreender, discutir e implementar práticas inclusivas”, explica Daniel Canavese. Na UFRGS, o doutor em Saúde Coletiva também coordena o grupo Saúde Ambiente e Desenvolvimento (SAD), que atua em parceria com o TeDiS, da UFPR.
A UFPR participa de um grupo temático sobre saúde da população LGBTI+ na Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Através de projetos, seminários, oficinas e congressos, a Associação promove o diálogo entre a comunidade científica e os serviços de saúde, as organizações governamentais e a sociedade civil.
“Essa rede interinstitucional também atua na tradução e adaptação de pesquisas feitas no Brasil. Isso estimula discussões internacionais no campo das questões de gênero e diversidade sexual”, avalia Canavese. O grupo de pesquisa coordenado por ele na UFRGS também faz parte da rede da Abrasco.
Manifesto por políticas públicas chega até a OMS
A carta escrita pela rede de pesquisadores faz parte de um repositório criado pela OMS para reunir publicações científicas relacionadas ao coronavírus. Segundo Canavese, a seleção do trabalho foi um marco no reconhecimento das universidades públicas, como um espaço plural e diverso. “Foi um esforço de pesquisadoras e pesquisadores pela equidade de gênero”, comemora.
Antes de chegar à âmbito mundial, os professores também enviaram cartas para o Ministério da Saúde, para o Conselho Nacional dos Secretários Municipais de Saúde e para o Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Saúde. “Dessa forma, cobramos informações sobre como estão sendo desenvolvidas ações específicas para a população LGBTI+”, reitera Canavese.

Na UFPR, ações de inclusão e diversidade também reforçam a postura contra qualquer tipo de discriminação contra minorias de gênero. Anualmente, a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec) promove o “Junho LGBTI+”. O evento promove reflexões sobre os avanços, as conquistas e os desafios desse grupo social. Criada em 2018, a Superintendência de Inclusão, Políticas Afirmativas e Diversidade (Sipad) também desenvolve políticas de gênero e diversidade.

Fonte: Agência Escola de Comunicação Pública UFPR

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