OMS: Com sistema de saúde arrasado em Gaza, pacientes “definham de dor”

Agências da ONU pedem cessar-fogo para reconstruir hospitais; mais de 76 mil pessoas precisam tratar ferimentos, mas faltam insumos essenciais; amputações e partos ocorrem sem anestesia; ondas de ataques de colonos israelenses na Cisjordânia e escalada entre Israel e Irã aumentam tensões regionais.

FOTO: OMS/Christopher Black

Nesta terça-feira, a Organização Mundial da Saúde, OMS, emitiu um novo apelo de cessar-fogo para que seja possível reconstruir hospitais em Gaza, incluindo o Al Shifa, que foi “basicamente destruído” depois de uma operação israelense.

Após uma missão da OMS no local nesta segunda-feira, o porta-voz da agência, Tarik Jasarevic, declarou que “a administração está tentando limpar o departamento de emergência, mas o trabalho é enorme”. 

Amputações e partos sem anestesia
Segundo ele, apenas um terço dos 36 hospitais de Gaza permanecem funcionais, o que significa que é essencial “preservar o que resta” do sistema de saúde do enclave.

Porém, as necessidades continuam enormes, com mais de 76 mil pessoas feridas, segundo as autoridades locais. Várias agências da ONU alertaram repetidamente que as amputações e os partos por cesariana ocorreram sem anestesia.

Segundo a ONU Mulheres, neste momento existem cerca de 155 mil grávidas em Gaza, sendo que 5,5 mil delas têm o parto previsto para o mês que vem.

O representante da OMS apelou para que “o mecanismo de resolução de conflitos seja eficaz, transparente e viável”, referindo-se ao sistema de aprovações utilizado pelos profissionais humanitários em conjunto com as partes em conflito para tentar garantir que comboios de ajuda não se tornem alvos dos confrontos.

Jasarevic afirmou que “mais de metade” das missões planejadas pela OMS entre outubro passado e o final de março “foram negadas, adiadas ou enfrentaram outros obstáculos”.

Não há alívio para os feridos
A porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, afirmou que a falta de pessoal, agulhas, suturas e outros equipamentos médicos essenciais significa que “crianças feridas muitas vezes definham de dor” em hospitais ou em abrigos improvisados.

Falando do Cairo após a sua última missão ao norte de Gaza, onde o veículo em que estava foi atacado, Tess Ingram disse que era notável o número de jovens que ficaram feridos pelos bombardeios israelenses.

Ela citou o caso de um jovem de 14 anos que “foi deixado nu e interrogado durante horas por militares israelenses” e, depois de liberado, viu seu pai morrer e levou um tiro na pélvis que causou graves ferimentos internos e externos.

A representante do Unicef declarou que continua muito difícil evacuar pacientes gravemente feridos ou doentes para receber cuidados médicos fora de Gaza. Menos de metade de todos os pedidos foram aprovados, o que significa que apenas cerca de 4,5 mil pessoas, a maioria delas crianças, conseguiram deixar Gaza, uma taxa inferior a 20 por dia.

Ondas de ataques na Cisjordânia
Destacando a situação das pessoas em Gaza, o alto comissário dos Direitos Humanos da ONU, Volker Turk, apelou na segunda-feira a “todos os Estados com influência” para que acabem com a “crise humanitária e de direitos humanos cada vez mais horrível” em Gaza.

Turk afirmou que “Israel continua a impor restrições ilegais à entrada e distribuição de assistência humanitária e a levar a cabo a destruição generalizada de infraestruturas civis”. 

O chefe de direitos humanos também expressou profunda preocupação com o aumento da violência e “ondas de ataques” nos últimos dias contra palestinos na Cisjordânia por centenas de israelenses que abitam em assentamentos, “muitas vezes acompanhados ou apoiados pelas Forças de Segurança Israelenses”. 

Após o assassinato de um menino israelense de 14 anos de uma família de residentes em assentamentos, quatro palestinos, incluindo uma criança, foram mortos e propriedades palestinas foram destruídas em ataques de vingança, disse Turk em comunicado.

Citando informações recebidas pelo seu gabinete, Turk informou que residentes de assentamentos armados e forças israelenses entraram em “várias cidades”, incluindo Al Mughayyer, a aldeia de Beitin em Ramallah, Duma e Qusra em Nablus, bem como as províncias de Belém e Hebron.

Dezenas de palestinos teriam sido feridos na violência que se seguiu “e centenas de casas, edifícios e carros foram incendiados”. 

“Gatilho” regional
Em Genebra, a chefe da Comissão Internacional Independente de Inquérito nos Territórios Palestinos Ocupados, declarou estar seriamente “alarmada” com a possibilidade da escalada militar entre Israel e o Irã desencadear um conflito regional.

Em uma sessão informativa para a Liga Árabe, dias depois do Irã ter lançado um ataque massivo com drones e mísseis contra Israel, Navi Pillay destacou a escala “sem precedentes” da guerra sustentada por Israel.

Segundo ela, “o cerco total imposto a Gaza desde outubro de 2023 resultou em uma catástrofe humanitária inimaginável, com a fome e a inanição agora tornadas uma realidade para os residentes”.  

A chefe da comissão disse ainda que a destruição de estradas e infraestruturas “comprometeu gravemente” a capacidade dos profissionais humanitários de levar ajuda à população.

ONU NEWS